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Blogging around

por Catarina, em 09.01.17

Quando comecei o blogue estava numa daquelas fases más, para baixo, a sentir-me sem "pessoas" à volta, a sentir algumas coisas a ruir. Durante muitos anos desde o princípio da adolescência escrevi diários, uns atrás dos outros, sempre cultivei esse bichinho da escrita, quase tanto como o da leitura. Esses diários eram tanto do dia a dia como dos medos, das frustrações, dos sonhos, do desespero, dos amores, das paixões, enfim, de tudo aquilo que se passava cá dentro e que eu por norma não partilhava. Cresci a guardar muita coisa para mim, a tentar que esses sentimentos se resolvessem cá dentro, sem que alguém chegasse a saber deles. E gosto disso. Gosto de ser reservada. Também gosto de partilhar, de conversar, de ser uma tagarela, mas muitas vezes as minhas "coisas" não são o tema desses momentos.Cheguei a ter outros cadernos só para escrever histórias, as minhas histórias inventadas, os meus devaneios, os meus guiões de "novela" para as brincadeiras de bonecas; da mesma forma que o fazia criava os cenários, o guarda roupa, pensava os acessórios, escolhia a música, era perfeccionista e antes de "começar a brincar" podia levar dias a preparar a brincadeira em si.

Quando há cinco anos conheci o M. a minha vida girou uns 180º e tenho de dizer que metade das minhas angústias e depressões desapareceram. Chegava a sentir-me culpada por estar tão feliz, ter tanta coisa boa para "guardar" e não escrever. Tudo passou a servir de desculpa, tinha tanto que fazer, tanto para viver e sentir, que escrever perdeu a importância e o espaço que antigamente tinha na minha vida.

 

Quando há uns meses passei a fase "baixa" do ciclo das minhas luas senti saudades; senti uma vontade incontrolável de escrever, desabafar, "pôr no papel". No fundo sempre senti que escrever me ajudava a pensar, a avaliar... os problemas perdiam algum peso, estavam divididos entre mim e o papel; ajudava-me a relativizar, a por em perspectiva. Nessa altura voltei a pensar em escrever um diário, mas depois resolvi abrir os olhos ao mundo e vi que podia ser uma boa ideia criar um blogue. Já muitas vezes tinha pensado em criar um. Criei um a primeira vez para publicar editoriais de moda que coleccionava, imagens que guardava, quase para fazer um arquivo digital do que tinha acumulado em anos e portefólios. Mas depois perdi a pica. Provavelmente porque o conteúdo que ali tinha era apenas um hobbie, não era um pedaço de mim, não me pertencia, eu era só o veículo. Desisti, e pensei em criar outro, um com "alma". Cheguei a escrever textos mas não chegaram a sair da pasta do computador. Hoje em dia já nem têm sentido, tiveram apenas na época, hoje são peças soltas, cartas perdidas de um baralho. 

Então dei o passo que faltava e criei o Idem Aspas, uma expressão que uso várias vezes; no momento em que o fiz comecei logo a pensar se devia ou não; Senti logo que estava a assumir uma qualquer responsabilidade que não sabia se ia cumprir, se ia sequer querer cumprir. Fiquei na dúvida se iria realmente partilhar alguma coisa, entregar-me, colocar a "alma". E felizmente cedo percebi que era a escolha certa; que tinha feito a aposta correcta; Rapidamente o blogue começou a ser o meu escape, a minha terapia. Voltou o gosto pela escrita, voltou a vontade de ler livros e devorar histórias, voltou tudo em catadupa! Às vezes sinto mesmo que podia passar o dia todo nisto...entre ler, escrever, pesquisar, pensar, reflectir, criticar... no fundo há muita coisa guardada em mim. Sei que se não tivesse sido designer podia ter sido outras 50 coisas. Acredito que na vida conseguimos aquilo porque lutamos, basta ter vontade, dedicação, trabalho, em suma, investir. Sei que podia ter feito outras escolhas e aposto que em todas sentiria o mesmo. Se não fosse designer pensaria que daria uma excelente designer ...e por aí fora. 

Seja como for, não me arrependo, gosto do meu percurso assim e gosto desta nova vertente que criei com o blogue. Gosto de poder usá-lo tanto para desabafar, como criticar, como partilhar qualquer coisa que me apeteça. Percebi recentemente que esta plataforma é mais do que pensava no início. É um universo vivo, paralelo mas vivo, onde se conseguem distinguir as pessoas por detrás da página, do texto, da imagem. É mais homem, ou mulher, e menos "máquina" e com o tempo torna-se acolhedor. Porque não podemos esperar que o nosso diário em papel algum dia nos responda de volta, ou nos diga que o fizémos rir ou nos dê um conselho. Mas aqui as portas estão abertas até onde quisermos, para deixar ou não alguém entrar. E gosto disto.

  

 PS - Hoje era mesmo um daqueles dias em que ficava assim: meio vestida meio de pijama, e nem sequer me dava ao trabalho de ir para a mesa, vinha o computador à cama e ficávamos lá os dois quentinhos em vez de enfrentar 4º que até davam para condensar a respiração dentro do carro...

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