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Chamam a isto Serviço Público?

por Catarina, em 18.01.17

Entre Domingo e Segunda feira à noite a TVI emitiu uma reportagem em duas partes sobre o "negócio" das editoras e dos manuais escolares, assinado pela jornalista Alexandra Borges (AB). Na segunda o tema continuava em discussão na 21ª hora no TVI 24, moderado pelo José Alberto Carvalho e com a presença da jornalista AB bem como a Secretária de Estado da Educação e um representante da Porto Editora (PE).

 

Gosto de ver este tipo de trabalho jornalístico de investigação embora com o passar dos anos me tenha apercebido que o seu poder de influência na opinião pública deveria exigir em muitos casos uma atenção redobrada à qualidade do que se vai apresentar. Vi a reportagem nos dois dias e ontem assisti ao debate; Não contente, e porque me revoltou muito do conteúdo destas peças, voltei hoje a ver as duas partes da reportagem e o debate novamente. Poucas, muito poucas vezes na vida fiz isto mas ainda estava a ver a reportagem de domingo quando em pouco tempo começo a perceber o tom sensacionalista e acusatório da mesma.

 

Não retirando mérito ao tema que é de facto um problema real por resolver que desgasta o orçamento das famílias, a verdade é que não vi nem nada de novo nem nada de particularmente esclarecedor nesta reportagem. Vi sim um desenrolar de acusações mais ou menos veladas, conclusões que me parecem precipitadas pelo facto de não as ver provadas pela reportagem e um ataque feroz a classes. A meu ver ficam a faltar factos, visões isentas, provas reais do que foi dito.

(Também vi tempo de antena atribuído a uma ex-ministra que foi a fonte da maior parte dos problemas que o Ministério da Educação anda a tentar resolver até hoje, a fonte dos primeiros ataques sem precedentes à classe docente que culminaram em frases como "Perdi os professores mas ganhei os pais"...)

 

Toda a reportagem se centra na acusação de que o preço elevado dos manuais escolares se deve ao facto das editoras gastarem balúrdios em ofertas, brindes, formação, apresentações, marketing etc. com as escolas e os professores e que esses custos se reflectem no preço final, pago pelos pais. Não sendo eu de economia consigo até perceber o raciocínio, mas não o vi dado como provado por A+B.

O tom acusatório seguia com uma série de outras premissas que revelavam no mínimo uma profunda falta de conhecimento do que é o trabalho de um professor hoje em dia, e isto foi o que mais me incomodou.

 

Entre os vários entrevistados contam-se alguns professores, a Secretária de Estado da Educação, representantes da Leya e da Porto Editora e um anónimo promotor de uma editora; De todos, à excepção da Secretária de Estado ouvi verdadeiras "pérolas".

 

A classe docente esteve nesta reportagem particularmente mal representada. Destaco as imagens da escola de Montijo que se centram essencialmente na actividade de duas professoras (não tenho a certeza se eram de facto as duas professoras...) que apagam energicamente manuais para reutilização. Ora fazem declarações pontuais para a câmara ora conversam entre as duas como se estivessem à janela, mas o pior não é isso, é mesmo o conteúdo do que dizem:

"A bíblia do professor é o programa, o professor tem de se cingir pelo programa", aqui a minha dúvida se a senhora é mesmo professora porque se o é deveria saber que há programas em uso do fim da década de 80, princípios de 90, e que se não fossem as metas, esses bichos papão, os programas não estariam minimamente actuais.

A colega, a propósito dos materiais fornecidos ao professor pelas editoras afirma "se eu me restringir a isto qualquer pessoa pode ser professor, e acho que não é bem assim"; ora acha e ainda bem, foi a única coisa que disse de correcto. É que o facto de inundarem os professores com resmas de papel e recursos não significa que estes não tenham o seu trabalho para fazer da mesma forma. Mesmo que recorram a estes apoios é impensável acreditar que os materiais todos se adaptam a todas as escolas, a todas as turmas e a todos os alunos de forma standardizada. 

 A conversa continuava enquanto apagavam livros de borracha em riste: "Ai posso-lhe dizer que as editoras para sobreviverem até oferecem às escolas projectores!" ao que a outra responde "Ai nunca aconteceu connosco! Nós não fazemos esse tipo de negócio"; Aparentemente tinha acontecido com uma escola de outro agrupamento, e a senhora era claramente uma justiceira incorruptível que felizmente não deve ter passado por aquelas escolas onde não há dinheiro para nada e a tecnologia mais moderna a imperar é ainda um VHS.

 

Uma outra escola, em Montemor, foi apresentada como exemplo pelo facto de ter eliminado a adopção dos manuais escolares, com autorização do ministério da educação, e ter produzido os seus próprios materiais que disponibilizou em tablets para os alunos. "Com os tablets a reutilização à partida está garantida", afirma AB, mas quantas outras questões levanta esta solução? Um professor entrevistado concordava com a jornalista que o melhor professor faz o manual, sente-se mais professor; então pergunto o bom médico é o que faz o químico e o dá ao doente? O bom advogado faz a lei? Que raio de conteúdo é este?!?!?!?

 

Outro entrevistado, que não deu a cara por ser promotor de uma editora, fez também algumas declarações fantásticas ao afirmar que os professores escolhem de acordo com o que lhes oferecem: "o professor é o cliente da editora", "o professor não precisa de ter tanto trabalho de casa, hoje em dia a adopção passa por aí" e que o que encarece os manuais são: "a forma como chegam às escola, as formações, as apresentações"; Pausa... formações? Repitam comigo, for-ma-ções? Do verbo formar? Formar quem os professores? Ensiná-los a usar o rato do computador ou a abrir a drive dos cds para aceder aos conteúdos multimédia? Não, expliquem-me por favor. Porque a única editora que conheço a fazer formação digna desse nome em Portugal, calha não ser portuguesa. Tudo o resto não passa de show-off e merchandising.

O representante da Porto Editora deu mesmo a entender que recheava bibliotecas escolares com os seus manuais, quando não são propriamente esses os livros que compõem uma biblioteca, ao argumentar contra a jornalista que o valor de uma determinada factura não era de ofertas mas de doações dos manuais às bibliotecas!

 

Portanto, resumindo, em hora e meia de reportagens e debate tudo o que se consegue retirar é que para AB os manuais são caros porque as editoras são mentirosas, escondem os preços reais e mascaram os preços de venda para levarem ocultamente ofertas fantabulásticas aos professores; Estes por sua vez estão corrompidos pela loucura dos brindes, ofertas e eventos de luxo com direito a actuações de cantores, quiçá internacionais, e por isso escolhem "quem dá mais". E toda esta fobia de merchandising segundo a jornalista concluí é paga pelos pais (que não os professores porque esses têm livros ofertados aos filhos claro). Entre o que mais me incomodou, AB parecia absolutamente obcecada com a questão ridícula da mala de cartão que a PE oferece às escolas que adoptem o projecto em causa: "quem e que paga a factura das malas e de tudo o que se oferece aos professores", perguntou "Não são os pais?"

Cansou-me a desiludiram-me as constantes insinuações, o trinómio "as editoras, os professores, as escolas" como se fosse tudo um grande esquema montado por todos e que culminou em frases como "mas afinal, o manual é para o aluno ou para o professor?" e "os manuais são um bem de compra obrigatória prescrito pelo professor" como quem diz, eles é que escolhem estes manuais caros quando há um Professor na Universidade de Coimbra que até fez um manual de matemática gratuito. Em toda a reportagem se tomou o todo pelas partes e soluções e propostas não vi nenhuma, à parte da sugestão inqualificável de AB de que os professores poderiam receber os livros por email para escolherem. A sério?

 Depois acho ridículo que se tentem comparar grandes editoras com as pequenas dando-se a entender que o mesmo trabalho pode ser feito por menos pessoas, pois ambos são certificados, e consequentemente com menos custos para os pais. Como se uma empresa maior com mais capacidades e recursos para existir no mercado deixasse de ter "direito à vida" porque as pequenas não têm a sua capacidade. Sou absolutamente contra os grandes grupos editoriais, gosto, ou gostava mais quando eram mais pequenos e mais independentes, mas também acho que não se pode culpar alguém ou algo por ter sucesso e por sobreviver na crise.

 

O que me incomoda mais ainda do que tudo isto? A classe docente sai mais uma vez debaixo de lama, arrastada para o tema de forma agressiva; Antes do governo de Maria de Lurdes Rodrigues não se ouvia o ataque exacerbado a que se assistiu e assiste ainda contra os professores. Qualquer pessoa "ganhou" o direito a dar "bitaites" nesta actividade, mas ninguém opina sobre as decisões de um médico, por exemplo. Uns têm mais direito à profissão que outros? 

 

Como filha de professora posso garantir que tomara alguns professores poderem evitar receber os rios de papel que algumas editoras produzem que só servem para nos atafulhar as casas quando a escola deixa de ter espaço físico para tanto "projecto". Espero realmente que em breve este governo encontre forma de evitar o desperdício de papel sem que isso signifique adoptar um "livro único" como nos tempos da ditadura e deitar por terra o trabalho de anos das editoras. Se estas funcionam mal regulem-nas, se as leis não servem façam outras, se não são cumpridas tomem medidas, mas este lavar de roupa suja em praça pública não serviu a ninguém.

 

Na sua página de facebook Alexandra Borges publicou entretanto um esclarecimento do qual retiro a seguinte frase: 

"Os professores que se sentiram ofendidos,ou não perceberam nada desta investigação, ou viram outra reportagem que não a que passou na TVI."

Acho que Alexandra Borges também não a viu.

 

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15 comentários

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De Ana Gomes a 18.01.2017 às 11:07

De tudo o que vi nesta reportagem e debate e mantendo-me isenta (apesar do marido trabalhar na PE), conhecendo eu os meios da editora e como funcionam digo que a AB de isenta pouco teve, quando à secretária de estado podia estar calada porque asneiras já chegam as do ministro. Quanto ao director da PE não me convenceu em quase nada. Questiono-me o porquê de a Leya (outra grande editora) não ter ido ao debate já que tem tambem pequenas editoras no grupo como é a ASA??
E questiono-me se o ministério oferece os livros ao 1º ciclo (1ºano) mas os quer imaculados no final do ano como vão os miudos aprender a escrever se não o podem fazer no próprio manual? Caso o livro seja devolvido em más condições (escrito ou pintado) os pais terão que pagar o mesmo!
Informo que os livros dos meus 2 filhos (1 2º ano + 1 4 anos) ficou tudo por cerca de 150 € e não são todos desta editoras (PE ou Leya).
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De Catarina a 18.01.2017 às 11:25

Também tenho essa dúvida, não percebi se a Leya não foi convidada ou se não quis estar presente, mas parece-me mais a primeira. A PE é grande mas não é o mercado todo.
Sim a questão dos manuais gratuitos no primeiro ano que têm de ficar imaculados também não está muito bem; Se há idades em que é importante o contacto físico com o objecto livro diria que é essa fase, até ao 4º ano talvez.
No final acho que a maioria das questões não teve uma resposta satisfatória.
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De Ana Gomes a 18.01.2017 às 11:30

Se a Leya não foi convidada para o debate é um erro craço da TVI e da jornalista em questão. A leya é quem detém mais pequenas editoras escolares do que a PE.
Ora Veja, a PE o grupo a nivel de livros escolares são eles mesmos e a Areal Editores que lhes faz frente nos manuais para o pré escolar.
A leya em editoras escolares tem a Texto, Gailivro, ASA... o resto são editoras de livros de literatura.
A mim quis-me parecer um ataque à Porto Editora... não sei se pelo facto de há uns tempos o Sr. Paulo Morais (antigo prof. universitário na Lusíada do Porto) os ter colocado em Tribunal e ter perdido a causa ou se a TVI não terá algo a ver com alguma editora.
Sinceramente não entendi bem!
Meteu-me nojo (desculpando o termo) como tudo foi conduzido para denegrir a imagem da PE e não quero defender de forma alguma uma empresa que a mim me diz muito, mas aquilo está mal contado!
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De Catarina a 18.01.2017 às 17:31

Também acho que deveriam estar representadas no debate mais editoras; só com a PE dá a sensação que há ali um "problema particular".
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De Maria Araújo a 18.01.2017 às 12:58

Não costumo ver a TVI e/ou TVI 24, não vi a reportagem.
Deste post, transcrevo o que mais gostei de ler, porque parece-me que conhece bem o que é ser professor:

"O tom acusatório seguia com uma série de outras premissas que revelavam no mínimo uma profunda falta de conhecimento do que é o trabalho de um professor hoje em dia, e isto foi o que mais me incomodou.

" Estes por sua vez estão corrompidos pela loucura dos brindes, ofertas e eventos de luxo com direito a actuações de cantores, quiçá internacionais, e por isso escolhem "quem dá mais".

"Tudo o resto não passa de show-off e merchandising."

" A classe docente sai mais uma vez debaixo de lama, arrastada para o tema de forma agressiva; Antes do governo de Maria de Lurdes Rodrigues não se ouvia o ataque exacerbado a que se assistiu e assiste ainda contra os professores. Qualquer pessoa "ganhou" o direito a dar "bitaites" nesta actividade, mas ninguém opina sobre as decisões de um médico, por exemplo. Uns têm mais direito à profissão que outros? "

Parabéns.
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De Catarina a 18.01.2017 às 17:32

Obrigada.
De facto tendo uma mãe professora desde sempre convivi com a realidade da profissão e por isso muito me custa a forma como é atacada hoje em dia, nesta reportagem e em tantas outras pseudo-notícias.
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De Olivia a 18.01.2017 às 14:08

Eu vi na segunda-feira e, realmente, é incrível aquilo que acontece no nosso país. Ameaças das editoras, é demais!
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De Catarina a 18.01.2017 às 17:33

Sim, diria que há muita coisa "incrível" que ficou por explicar..
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De simplesmente avô a 18.01.2017 às 14:32


Também eu vi a reportagem.

Talvez pudesse ser um pouco mais isenta.

Em todo o caso, o jornalismo de investigação faz muita falta.




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De Catarina a 18.01.2017 às 17:35

Como órgão de informação tem a responsabilidade e a obrigação de o ser!

Mas concordo, o jornalismo de investigação faz muita falta, e até aprecio bastante quando é bem feito.
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De Jorge Fernandes a 18.01.2017 às 18:02

Concordo em absoluto.
Miséria de trabalho jornalístico, mais uma vez centrada em atacar uma classe.
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De filipe a 18.01.2017 às 18:40

Estes senhores deviam era antes preocuparem-se com o envenenamento das crianças pelo Flúor e a droga distribuída ( escolas mais carentes ) forçosamente para sentar as crianças nas cadeiras por serem hiperativas e estarem a alegadamente a prejudicar outras menos hiperativas . Deviam ter hoje vergonha em Portugal como foi pioneiro em 1492 por parte de D.João II em expulsar e matar milhares de crianças Judaicas e agora a espalharem pelas escolas experiências começas nos campos de concentração de judeus com substancias proibidas em muitos países , mas por cá com a intenção de aniquilar o cérebro e desenvolvimento normal de uma criança . Tenham coragem de fazer a investigação e não venham depois dizer que os alunos Portugueses tem muito abandono escolar , é PROPOSITADO para pouparem ao ESTADO , pois os envenenam e os drogam .http://www.bbc.com/portuguese/geral-36497492 * http://www.esquerda.net/artigo/bloco-questiona-administracao-de-ritalina-criancas-com-hiperatividade/37237 * http://portugalmundial.com/2013/03/fluor-na-agua/ * http://www.rtp.pt/programa/tv/p33889
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De Sandra Wink.Wink a 18.01.2017 às 23:05

Eu vi, vi e não gostei.
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De Anónimo a 19.01.2017 às 07:15

Só uma observação: a escola não era de Montemor mas sim do Montijo.
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De Catarina a 19.01.2017 às 09:34

Obrigada pela correcção, já editei.

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