Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Os cães dos outros

por Catarina, em 15.07.17

Como este tema tende a ser muito sensível faço já aqui um aviso à navegação: não tenho nada contra os animais em geral (nojinho de baratas e répteis conta?) e sou grande defensora dos seus direitos, o problema para mim começa quando os direitos de uns invadem os direitos dos outros.

 

Lá em casa desde pequena que sempre pedi um cãozinho; Por viver num apartamento com uma mãe que já tinha mais o que fazer o mais perto que tive de um animal de estimação foi mesmo um peixe laranja num aquário com uma plantinha. Tinha muito pouca interacção mas garanto que costumava abrir e fechar a boca na hora de lhe dar comida! Em casa da minha avó, quando nasci e até aos meus primeiros dois anos, existia um cão, o Niki, um labrador creme já muito velhote, e que, alegadamente porque não me recordo disto, eu fazia tudo e mais alguma coisa desde brincar com ele, puxar-lhe a cauda e meter as minhas mãozinhas dentro de sua boca. Contado, ainda não acredito. Lembro-me que o Niki morreu velho e doente, na realidade os meus avós escolheram terminar com o seu sofrimento, e nunca mais tivemos um cão na família. A minha tia ainda teve um gato, ainda houve uma luz naquele túnel familiar sem animais, mas a história do gato foi mais trágica que a do cão, e isso pôs um ponto final no tema, para sempre.

Isto fez-me crescer sem grande contacto com animais, e quis o destino que o prédio onde vivi os meus primeiros vinte anos tivesse cães em tudo o que era andar. Eu tinha medo de quase todos, e tendo em conta que dois deles me tinham feito pequenas perseguições quando tinha uns 7 ou 8 anos, tinha razões para isso. A minha mãe teve discussões com o vizinho dono dos cães para que os trouxesse à rua pela trela, porque claramente eles não podiam ver uma criança aos saltos que lhe tentavam saltar em cima. Naquela época sempre que via um cão comecei a esconder-me e atravessar ruas para longe. Calculava as entradas e saídas do prédio para não ter encontros de 4 patas. Eu sei lá! Perdi as contas às vezes que evitei que os cães dos outros se chegassem a mim, maiores e mais pequenos, na maioria das vezes sem trelas. A minha prima conseguiu a proeza de ser mordida por um caniche que estava ao colo da dona e histórias como esta só serviam para aumentar a minha distância de caninos. Para mais sempre que visitava o meu pai e a minha madrasta ficava automaticamente a dormir sob o mesmo tecto que 2, 3 ou até mesmo 4 canídeos.... era o pânico total apesar dos inúmeros "ele não faz mal", "ele não morde".... etc. Um deles era tão pequenino que conseguia em pé comer do meu prato à mesa se quisesse...

Quando comecei a namorar com o M. descobri que ele tinha um amor por cães que era uma coisa louca. Não desgostei, e até vi ali uma oportunidade para conseguir atenuar o medo que tinha crescido em mim. Por sorte a meia-leca dele é uma rafeira que criaram desde bebé depois de a resgatar do canil, e não sendo a cadela mais sociável deste mundo gostamos muito uma da outra! Foi com ela que aprendi a estar mais à vontade com os cães de forma geral (vão sempre existir aqueles que me fazem mudar de passeio); Ganhei à vontade suficiente para passear sozinha com ela várias vezes, e até para a soltar numa zona da praia sem ninguém. Nestes momentos procuro sempre ter atenção se ela se chega mais às pessoas, ou a crianças, porque consigo pôr-me na pele dos outros, e os ouros não sabem que ela tem as vacinas em dia, que não tem pulgas nem coisas que tal, que só quer cheirar e não morde ninguém. Os outros não conhecem os nossos cães, como nós não conhecemos os dos outros, e não é por saber que o meu cão é o melhor da turma em comportamento que tenho de obrigar as outras pessoas a conviverem com ele em proximidade. 

Quando comecei a conhecer o resto da família do M. percebi que o amor aos cães não se ficava na meia-leca mas o irmão e a cunhada tinham 2 serra da estrela, às quais juntaram 2 labradores....tudo pequenino como se imagina... Ora as mais velhas ainda vá que não vá, mas o labradores são loucos, especialmente o cão, baba-se por tudo quanto é canto, e atira-se para cima das pessoas, seja quem for, como é óbvio o cão não distingue quem é que quer levar com ele em cima, ou quem vai ao chão em menos de um fósforo... O que me irrita nisto é que o comportamento do cão é igual se estiver na sua casa ou na dos outros, e os donos assumem aquela atitude de "é normal ele atirar-se para cima de ti, só quer brincar", e nem sequer tentam impedi-lo. A vontade daquele ser de 4 patas reina onde quer que esteja e isso chateia-me porque eu preferia não ter de levar com ele... lá porque os donos apreciam a baba na roupa e na mobília, e os encontrões daquele pequeno bisonte, podiam entender que os outros não sentem o mesmo. Como quando dizem "ele só quer cheirar", e eu fico com vontade de dizer "e alguém disse ao cão se eu quero ser cheirada"?!! Conclusão, fico sempre vista como a pessoa que não gosta de animais, que não gosta de cães, a menina birrenta e detesto que me façam sentir isto, e que me ponham nesta posição. Não percebem que me estão a impor os seus cães e os seus hábitos e como eu recuso render-me mas fico a sentir-me mal e a tentar dar explicações sobre o meu historial com cães como se tivesse de me justificar. 

No fundo, o que alguns donos não entendem, e deviam ser educados para isto (não só os cães), é que se o espaço deles invade o dos outros acaba a liberdade do outro que não pediu essa intromissão. Se eu tivesse um réptil de estimação será que os outros iriam querer uma iguana a lamber-lhes os dedos dos pés? Ou se eu tivesse uma ratazana de estimação? É só pensarem um bocadinho.

Em Itália percebi que há lojas que permitem cães, e já ouvi dizer que em Portugal pensam fazer o mesmo. Eu pela minha parte digo já que sou contra. Sou contra ter de experimentar roupa num provador onde já esteve um cão antes com o dono, sou contra ver roupa numa loja enquanto um cão passa por mim, sou contra vir a cheirar e encontrar os seus fluídos nestes locais, e não me venham dizer que os bem comportadinhos não fazem fora do penico! Há limites para tudo, e por mais que defenda os direitos dos animais, que defendo, não consigo conceber a ideia de sermos todos exactamente iguais em , porque não somos. Porque há o factor animal racional versus animal irracional, e essa é a linha que nos separa, já nem falando de quando os animais têm outros animais como donos.

Para que escola mandamos os donos dos animais para que estes aprendam como ter um animal em sociedade, e percebam que não se pode simplesmente impor um ser aos outros, seja de que espécie for?

Autoria e outros dados (tags, etc)


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Aninhas a 15.07.2017 às 11:52

Já somos 2 a pensar assim! No meu caso, nasci e cresci numa aldeia até aos 11 anos! Lá tínhamos cão gato burro galinhas coelhos,etc,etc! Mas td no quinta na cavalariaçã, ou seja cada macaco no seu galho! O cão e o gato, de vez enquando entravam em casa, eu a mais nova brincava com eles um pouco! Gosto mto dos animais, mas na minha casa NÃO! Non meu sofá, na minha cama, nem pensar! Mas os animais são como as crianças, teem k ser educados! Mas os pais hoje nem sabem dar educação aos filhos, qto mais aos animais! Acham k dar educação é deixar fazer o que lhes apetece! Enfim, tempos modernos!
Imagem de perfil

De Catarina a 24.07.2017 às 09:09

Acho que crescer com animais é saudável e uma boa experiência; eu no meu caso a viver num apartamento em Lisboa não tive muita oportunidade para isso. Mas a questão é sempre a mesma, se os donos tiverem bom senso está tudo bem, se forem como aqueles pais que insistem em não ver os filhos que têm, nada feito!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.08.2017 às 14:39

Clap, clap, clap :) É isto!

Bem, descobri que não estou sozinha no mundo! Muito muito obrigada.

Concordo em pleno. Respeito os animais e defendo os seus direitos. Diferente é TODA a gente achar aceitável que TODOS os animais entrem na nossa esfera. Não somos todos iguais. Não temos que o ser!
Compreendo tão bem o que dizes. Sinto-me sempre a ranhosa que não pode ter os animais perto, a menina esquisita que pede que os prendam, a insensível. Tenho medo de fazer certas caminhadas sozinha, porque... pode aparecer um cão (demasiado brincalhão, vá...).
Só quero que respeitem que eu não me sinto (nem tenho) à vontade com os animais, como a maioria das pessoas.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D