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Sempre Abril

por Catarina, em 26.04.17

Desde pequena que o 25 de Abril é o meu feriado preferido. Não me importa o dia da semana a que calhe mas sempre gostei da aura que este dia emanava.

Sabia o que era antes de ter aprendido ainda mais na escola, porque tenho uma família que gosta de contar histórias, desde os pais aos avós, e o melhor, tenho várias perspectivas. Do lado paterno tive um avô que sendo da Marinha Militar era notificado para ir votar no regime no tempo do Estado Novo, sem opção de escolha. Do lado materno tenho um avô que não deixava que existissem conversas de “política” em casa, e um primo da minha avó que foi um dos presos libertados de Caxias na revolução e que durante muitos anos víamos na televisão quando repetiam essas imagens.

Histórias não me faltavam, e informação também não porque o meu avô materno guardou os jornais do dia. Tenho a Capital, o Diário Popular e mais uns quantos, dos dias 23, 24, 25, 26, 27, até ao primeiro de Maio! São um tesouro (pelo menos assim achou o meu professor de história do 9º ano, no dia em que levei para a aula uma pasta com meia-dúzia deles) que guardo comigo religiosamente num portfólio organizado página a página. Há dois anos, na escola onde a minha mãe lecciona organizou-se uma palestra com Capitães de Abril e emprestei o meu tesouro que foi apreciado pelos próprios com emoção (e muita pena tive de não poder ir pessoalmente).

Lembro-me de ter escrito tanto no teste de história do 9º ano sobre o tema que tive de virar a página na horizontal para usar a margem maior! Eu sabia as horas e os minutos, as músicas, a ordem dos acontecimentos, os porquês, os nomes e os nomes de código. Ouvia na noite de 24 os morteiros no quartel da Pontinha que iniciavam as comemorações do dia, e assistia ano após ano aos “Capitães de Abril” da Maria de Medeiros, um dos meus filmes favoritos de sempre!

Vivia a revolução dos cravos da melhor maneira que conseguia, na urgência de absorver toda a história que era um passado ainda muito recente, e por isso muito interessante já que todos tinham uma história para contar.

Isto só para dizer que me chateia um bocadinho que o feriado seja aproveitado para tudo, e principalmente para aqueles discursos do “ainda estamos pior do antes do 25 de Abril porque temos a crise, e o desemprego e a precariedade, etc”. Isto revolta-me porque acho que falha um princípio muito básico: antes do 25 de Abril não tínhamos hipótese de dizer isto na rua livremente sem receio de represálias; não tínhamos a possibilidade de expressão livre, não podíamos contestar tudo e todos de maneira mais ou menos leviana, resumindo tudo à situação presente, à crise etc. Abril é liberdade, e é poder falar livremente, mesmo quando não há autoridade nem conhecimento para falar; todos ganhámos direito à liberdade de expressão e talvez se devesse fazer um melhor uso desta.

 

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