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Os sonhos

por Catarina, em 07.07.17

Já li umas coisas sobre sonhos, ouvi outras tantas, li outras; Todas encarei com o mesmo misto de sentimentos entre o respeito e a suspeita de não acreditar em nada do que lia; estranho? sim, porque outras vezes acredito piamente, pior, confirmo coisas. Assim parece estranho de explicar.

Sempre ouvi a minha avó Maria dar muita importância aos sonhos, e ter significados já definidos para alguns; Lembro-me de me contar uma vez que passara toda a noite a sonhar que dançava com o meu avô, e não gostava porque nos sonhos dançar era o presságio de morte, ou assim ouvira dizer a sua mãe, e antes a sua avó... 

Sonho muito, e frequentemente consigo lembrar-me dos sonhos, com mais ou menos pormenor;

Por vezes ficam apenas frases ditas, um gesto, uma cara, uma pessoa, um cheiro, um sabor, uma sensação. Tanto me lembro de tudo como de quase nada, mas mesmo aí fica sempre qualquer coisa a que por vezes me agarro para tentar recordar o resto. Claro que não é inédito ir sonhar com algo que acabei de viver, ver, assistir, etc, mas esses são aqueles sonhos sem importância, sem nenhum lado mais secreto ou íntimo.

Mas por vezes os sonhos são amálgamas de acontecimentos estranhos, e que por vezes significam algo; Quando digo significam refiro-me ao facto de ao ler o que o suposto sonho podia significar reconhecia na minha vida real evidências disso mesmo.

Uma vez sonhei com ratos, algo que nunca tinha acontecido, e de uma maneira horrível, era como que perseguida. Li que esse sonho estava associado a invejas e traições e na minha vida real existia realmente alguém no contexto de trabalho que atrás de uma falsa aparência simpática tentava puxar-me o tapete e fazer-me parecer incapaz aos olhos do chefe. Senti o sonho como um alerta de algo que já desconfiava e encarei essa pessoa de outra forma....e aniquilei-a com outra força.

Também me lembro que um dia sonhei que descia umas escadas e que a meio das mesmas encontrava uma roseira, com tantos mas tantos espinhos que ficava toda cortada. Na altura nada do que li de significados me fez o menor sentido, não liguei, mas fiquei com a sensação que poderia estar a escapar-me algo.

Muitos anos antes sonhara que uma amiga nossa ligava, lavada em lágrimas, e aos soluços nos dizia apenas "o Pedro,...o Pedro..."; No sonho subentendia-se que o Pedro morrera, e de facto o filho chamava-se Pedro. Não aconteceu nada ao Pedro, mas semanas depois o sobrinho, que também se chamava Pedro morria de uma doença degenerativa contra a qual lutava há muito tempo. Desde esse dia que dei outra importância aos sonhos, senti naquele momento que tinha sido algo premonitório, se bem que a que há em mim me diga que tendo em conta o estado de saúde da pessoa era algo mais ou menos expectável.

Os sonhos por vezes influenciavam-me a vida; tive uma época de tantos pesadelos que nem queria deitar-me e dormir com medo de voltar a eles.

Tive outra época em que só queria dormir para sonhar, porque nesses sonhos vivia algo que na vida real não conseguia. Muitas vezes sonhava com coisas (e pessoas) que desejava abertamente. Paixões que tinha declaradas e assumidas para mim mesma; não me parecia estranho que isso acontecesse. Chegava a acordar com a sensação dos lábios da outra pessoa ainda nos meus, com o calor do seu abraço acabado de dar...era um martírio acordar nesses momentos. Chegava a escrever um diário de sonhos nessas fases, apenas para que ao reler conseguisse recuperar um pouco da emoção que sentira ao sonhar. Por vezes consegue ser tudo tão real..

Há duas noites voltei a um dos meus sonhos recorrentes recentes.

Com uma pessoa com a qual não tenho nenhuma relação afectiva, mas que me atrai e que admiro.

No sonho vivia uma fase em que o elo que nos ligava era finalmente exposto, e tanto um com outro ficava a saber que era recíproco; o mais estranho nos sonhos por vezes ainda é como tanto se diz, se faz e se vive, em tão pequenas fracções de tempo.

Não é a primeira vez que sonho com esta pessoa, mas é a primeira vez que a nossa relação escala alguns níveis, e isso pode ser assustador porque acho estou a sonhar com um desejo reprimido que não sabia que tinha, ou se sabia não queria ver.

Sinto-me uma traidora de sonhos, impotente ainda por cima, porque por mais que já tenha tentado nesta vida não os consigo controlar! Nem quando queria que acontecessem o conseguia fazer...

É nestas alturas que penso, que bom, bom mesmo é não recordar; e é também nestas alturas que me lembro sempre deste filme!

 

 

 

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Obrigada J.K. Rowling

por Catarina, em 26.06.17

Faz hoje vinte anos que o primeiro livro da saga Harry Potter chegou ao público; Esse não foi o dia que mudou o fim da minha infância, mas foi quase! “A Pedra Filosofal” foi comprado lá para casa pela minha mãe, e por ela começou a ser lido enquanto eu evitava render-me… O título fazia-me pensar em filosofia, e por mais que não soubesse sequer o que isso era não me atraía; Ainda vivia agarrada aos livros dos Cinco e das Gémeas e achava que nada me ia fazer vibrar tanto. A minha mãe começou a ler e ia-me contando uma coisa aqui, outra ali, uma cena acolá; Por vezes ria-se sozinha e  dizia “Tens que ler isto!”. Quando me narrou a cena em que o Hagrid vai buscar o Harry aos tios e deixa o Dudley com um nariz e um rabo de porco eu percebi que tinha mesmo de ler aquilo tudo.

 
E assim foi, depois de um princípio pouco entusiasmado, que começou a minha relação eterna com a história do rapazinho de 11 anos, que afinal era feiticeiro e tinha um mundo novo na mão, em vez de viver no quartinho das escadas e ser vítima de bullying. A autora não só criou personagens incríveis mas apresentou-nos um mundo de magia como nunca tinha imaginado, contado ao mais ínfimo pormenor; Para tudo J.K. Rowling nos dava uma explicação, mais cedo ou mais tarde, e teve a capacidade incrível de construir uma mesma história em 7 livros sem esquecer nenhum detalhe ao longo dos anos, aguçando sempre a curiosidade do leitor, introduzindo novos temas e personagens quando necessário mas sempre tudo construído em grande dimensão; Não há nada “pequenino” em Harry Potter, nem personagens, nem cenários, nem histórias ou enredo; É tudo simplesmente avassalador! 
Durante muitos anos li a saga completa em loop, apenas intervalando de vez em quando. Ainda hoje se quiser ler um pouco que seja vou começar pelo menos a partir do terceiro livro (o meu preferido, cuja lombada já acusa bastante desgaste, e que guarda certamente areia de muitas praias!), e imagino-me a continuar assim por muitos e longos anos!
 
Ler é fantástico, mas ler algo assim, que nos puxa para outra realidade é brutal! Não há como explicar, só quem tem esta experiência de leitura sabe a que me refiro. A minha infância e juventude não teriam sido iguais sem Harry Potter, cresci com eles, partilhei as suas aventuras, medos, paixões; Estava com eles às compras no Inverno em Hogsmead, bebia cerveja de manteiga quando na realidade comia mentos em Tróia, estava nas mesmas aulas maçudas de História da Magia; Com eles, tinha uma outra “vida” clandestina, que era apenas possível quando abria um livro.
Esta sensação inexplicável é algo que se deseja a toda a gente, e que gostaria muito que um dia um filho meu vivesse, porque crescer assim é infinitamente melhor! Por isso guardo os meus livros com carinho, sei que nunca os vou perder de vista, e espero poder emprestá-los aos meus filhos...mas com carimbo de volta, porque nunca se sabe quando me apetecer ler a história, só mais uma vez!
 

Imagem daqui, via Pinterest

 

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Destes dias

por Catarina, em 22.06.17

Esta semana que passou foi quente e dolorosa; Foi um arrastar de sofrimento do princípio ao fim. Um destes dias ao almoço, enquanto víamos as notícias percebi que há locais que entram para a história pelos acontecimentos mais infelizes, e assim, também Pedrógão entra nas nossas memórias para sempre, como um dos acontecimentos mais negros que teremos para contar.

Constantemente ficava com vontade de clicar no "STOP" desta vida; Parar tudo por momentos; Parar o fogo, a dor, a tristeza; Simplesmente parar. As histórias tristes atropelam-se umas às outras, e por vezes já não queria ouvir, nem saber de mais nada. Mas não é fácil criar o mesmo distanciamento do que de algo noutro país ou continente; Aqui, para além de estarmos mais perto temos pessoas, amigos e familiares de outras pessoas, e mais forte ou mais fraco todos conseguimos traçar um elo nosso até à tragédia, e por isso é impossível suceder no afastamento. É essencial continuar, é preciso saber, estar informado; De repente lembramo-nos daquela amiga da escola que tinha ali família e amigos, ou do nosso colega de trabalho que é bombeiro voluntário na Sertã, e sobre quem temos medo de perguntar, caso não o virmos na sua mesa por vários dias.

Nesta angústia tudo se dilui; sabemos que é preciso continuar, caminhar, mais torto ou mais direito, mas com que forças? Se nos colocarmos na "pele" de alguém, como é possível seguir com a vida? 

Uma destas noites estava tão quente que dei cinquenta voltas na cama. O ar pesava, o vento não corria apesar das janelas todas abertas; Custava-me respirar, bebia água para absorver o oxigénio que sentia que o ar não tinha. O calor envolveu-nos quase toda a noite. Às três e tal da manhã levantei-me e fui buscar água fria que a que tinha no quarto já estava morna; O chão estava quente, a água da torneira também, só me apetecia entrar dentro do frigorífico e dormir lá. Quando voltei para a cama continuava com a sensação de que o ar pesava muito e que não me chegava aos pulmões; Pensei no que estaria a acontecer no terreno por aquela hora, se eu ali em casa mal conseguia respirar, que inferno estariam bombeiros e populações a viver nesse momento? Às quatro da manhã senti finalmente o ar mais fresco, respirar ficou mais fácil e dormi umas 3 horas minimamente confortável; Levantei-me cedo, urgia correr para o escritório...pelo menos ali podia contar com ar condicionado todo o dia; Na véspera tinha lá ficado até às oito da noite, com receio da temperatura que teria de enfrentar.

Nesse dia quando saí para ir almoçar a casa senti-me mal com o golpe de calor e a diferença de temperatura; Dos 24º bastou-me chegar aos 34º apenas com o abrir e fechar de uma porta, e já perto de casa a sensação era de 44º. É nestas alturas que gostava de hibernar num sítio fresquinho, juntar lá a família para os saber bem e ficar num cantinho qualquer isolado até passar tudo, até acabar tudo.

 

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Memories

por Catarina, em 02.06.17

Antes de mais uma nota..tenho os posts sobre Milão pendurados porque tenho tido a rede muito má e não consigo carregar as fotos, mas prometo resolver isso no fim de semana!

 
Hoje não sei porquê lembrei-me de uma época em particular; Lembrei-me de ter 17 ou 18 anos e ir para a praia com a minha tia e a minha prima nesta altura do ano; Uns anos antes optava por me instalar em casa dos meus avós nesses dias, mas nessa época preferia a liberdade de ir e vir sozinha! Saía de casa cedo, apanhava o metro e encontrava-me com elas no Cais do Sodré; Daí apanhávamos o comboio até ao Estoril e ficávamos estendidas ao Sol no Tamariz. Levávamos sandes, sumos e fruta e assim passávamos o dia. 
 Um dia no regresso encontrei no metro um antigo aluno da minha mãe, que eu sabia morar perto de nós pois já nos tínhamos encontrado várias vezes na rua, e por quem eu tinha um verdadeiro encantamento; Achava-o lindo, perfeito, maravilhoso, Deus no Céu e ele na Terra. Quando o vi passar pensei logo em chamá-lo, correr atrás dele; Olhei-me de soslaio, cabelo húmido e cheio de sal, calções de surf que trouxera da costa da caparica e que tinham um instrumento de plástico no bolso para fazer festinhas à prancha (coisas de “pita” como diria o M se soubesse desta história!), para rematar uma t-shirt toda largueirona sem costas, chinelos e mochila às costas, resumindo uma miúda! Enchi-me de artimanhas e dirigi-me “distraída” à zona onde ele se sentara na estação; Em pouco tempo lá nos tínhamos visto mutuamente e encetámos conversa que durou o metro todo e os 15 minutos a pé que nos separavam da estação até à minha casa, a primeira da fila. Cheguei a casa pendurada numas asinhas completamente embevecida pelo encontro, pela conversa por tudo. Nunca tínhamos passado tanto tempo a conversar só os dois e eu vinha apaixonada.
 
 Desde esse dia o meu Verão passou a tentar girar em torno dele; Trocámos números e começámos a combinar fazer o caminho juntos até ao Cais, ou de regresso vir no mesmo metro. Ele ia com os amigos para São Pedro do Estoril enquanto eu me juntava à minha tia e prima. Íamos descobrindo coisas em comum, gostos, manias, opiniões; claro que discordávamos algumas vezes, mas eu estava demasiado encantada para bater o pé numa conversa. Depois em Agosto fui com a minha mãe para o Algarve e as nossas conversas fizeram um intervalo; Quando regressei, quase a voltar às aulas lembro-me de passar o último dia de praia com ele. Combinámos fazer a despedida e encontrámo-nos às  8 da manhã para aproveitar o dia ao máximo. Dessa vez fomos juntos, eu deixei a família, ele deixou os amigos, e estivemos os dois em São Pedro, almoçámos juntos, voltámos juntos. 
 
Entretanto regressei à secundária para o 12º ano, e ele foi ver se acabava o último ano de faculdade. Algures entretanto fui percebendo que o seu ar jovial, sorriso simpático e fácil escondiam uma idade que eu não lhe atribuía. Estava apaixonadíssima quando percebi que nos separavam dez anos. Durante todo o tempo fomos só amigos, mas fomos muito mais que isso. Continuámos durante todo esse ano lectivo a trocar mensagens, a encontrar-nos para gelados e cafés; Fui um dia com ele à universidade a pretexto de um curso de pintura que queria fazer (éramos ambos de artes) mas era apenas para passarmos mais tempo juntos; Quando começou a trabalhar num restaurante no Chiado eu ia lá todas as tardes livres, nem que fosse para estar cinco minutos com ele, olhar dentro dos seus olhos, beijar-lhe o rosto, abraçá-lo antes do Natal… Recordo que ele costumava terminar as mensagens que me mandava com “Espero-te bem”, uma frase que nunca ouvi a mais ninguém, era apenas dele; Outras vezes chamava-me “querida”, o que eu não gostava muito, mas também me dizia que me adorava ou gostava muito de mim, já nem sei bem. E no entanto, fomos sempre, só amigos, apesar de eu rebentar de tanta paixão por ele! Mas no fundo, eu era ainda só uma miúda, sem conseguir dar um passo em frente, e ele era um homem e por o ser, nunca deu o passo em frente. Pensei muitas vezes no que poderia ter sido esta história. Tentei recuperá-la um ano mais tarde quando fui para a faculdade, mas senti que o tempo tinha passado e recuei.

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