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O outro lado do espelho

por Catarina, em 15.03.18

Porque uma história não tem só um lado, não tem apenas uma perspectiva, e é diferente para todos os que a vivem.

Depois de a ter escrito aqui, e falado sobre ela aqui, hoje a história continua aqui.

 

"Acordou com o chiar dos pneus ao travar no final da estrada. Sobressaltada bateu com a testa no vidro e olhou em volta para ter a certeza de onde estava. Ainda não sabia bem como ali fora parar, o que a levara a tomar aquela decisão. Há muitos anos jurara virar as costas de vez àquela terra, deixara-a sem a menor intenção de algum dia voltar, e agora não sabia bem se se sentia a engolir um sapo, se estava secretamente feliz. 

 

A viagem fora um transtorno mas sabia que não havia outra forma de chegar àquela vila piscatória no meio do nada, por isso tomara um comprimido para dormir, e acabara com uma dor no pescoço e a testa gelada.

Sempre se lembrava daquele lugar como algo frio, cinzento, onde se sentia a humidade no ar. Mas naquela tarde, ao descer da velha carripana que fazia a ligação semanal até à cidade, Amélia encontrou uma paisagem banhada pelo sol de inverno, num tom rosado e acolhedor. Sentia algum frio, mas era mais no interior do que da temperatura. Apanhou a velha mala de couro coçada e caminhou na direcção da vila. Enquanto caminhava tentava lembrar-se da última vez, do dia em que partira, dos rostos que tinha visto ou do caminho que tinha feito. Mas o seu cérebro estava parado, congelara no regresso, e na sua mente só via rostos, despegados uns dos outros, sem ordem ou sentido, os seus fantasmas de estimação.

 

De repente parou. As pernas pareciam tremer-lhe, o coração pulava, o seu corpo não aguentava o regresso. Mudou de direcção e caminhou até ao cais, parando na beira da água. Observou o seu reflexo, ajeitou a boina branca e soltou o cabelo deixando-o balançar ao sabor do vento. Inspirou fundo, deixando o ar salgado entrar pelos pulmões, limpando-lhe a alma. Recordou-se novamente da partida e olhando em volta pensou, voltei.

 

Quando se virou para terra novamente viu-o ao longe, parado, estático, olhando-a como se fosse uma miragem.

Estava certa de que era ele. Ele que a deixara partir, que não a impedira de ir à sua sorte. Ele que não lhe escrevera de volta uma só vez, nem quando pedira para voltar. Não quisera realmente voltar, mas escrevera apenas para saber se as portas se teriam fechado quando saíra por elas a última vez, e ficara sem resposta. 

O vento fazia-a baloiçar, as pernas bambas não a deixavam mover-se, e num segundo tudo parecia ter acabado. Ele vira-a e escolhera outro caminho para seguir, voltava-lhe as costas, ainda que tivesse parecido comovido de a ver.

Mais uma vez ficava sem saber, sentia-se agora tão confusa como quando partira com 15 anos, toda a mágoa, toda a dor e toda a revolta ainda a acompanhavam, e voltara para exorcizar os seus fantasmas. Não podia continuar a carregá-los mais, voltava ao princípio convicta de que onde tudo nascera tudo morreria, e então poderia ser livre."

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4 comentários

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De João Freitas Farinha a 15.03.2018 às 21:13

Tens jeito para isto! Esta está muito boa também :)
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De Catarina a 16.03.2018 às 09:18

Obrigada! Se não fosse o teu desafio isto nunca tinha aparecido
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De João Freitas Farinha a 19.03.2018 às 13:45

O meu desafio e a tua criatividade! ;)

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