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O problema está na cabeça

por Catarina, em 17.05.18

Já comecei este texto de mil e uma maneiras, a melhor foi ontem, de cabeça, mas não escrevi e já não consigo pôr de pé como estava.

 

Desde cedo que fui complexada com a imagem. O peso, a altura, o cabelo, a barriga, as pernas, as unhas, as sobrancelhas, os ombros, a massa muscular e a falta de ossos. Nem saberia por onde começar se fosse contar a história toda.

O tempo e as mudanças de idade foram permitindo algumas oscilações, ora para melhor, ora para pior.

 

Quem olhar para mim vê uma pessoa normal. Como em tudo nesta vida, o termo”normal” não é consensual. Para uns é uma coisa, para outros traduz outra diferente.

 

Eu sempre me achei “normal”, nem muito bonita nem muito feia, nem muito gorda, nem muito magra, e ligeiramente baixa, petite, que soa mais bonito.

 

Os meus olhos sempre foram extremamente auto-críticos com a minha imagem, e sempre me consumiu muito o aspecto. Clichés à parte, sobre a beleza interior etc, o certo é que a imagem é um cartão de visita, é o primeiro momento em que os outros vão fazer julgamentos. Não escrevo isto de forma depreciativa, apenas assumo isto como um facto. E não abordo isto por me preocupar demasiado com opiniões alheias, essa não é a questão. Para mim a opinião que conta sempre foi a minha, se eu não gosto de algo em mim, pouco me importa que outros não o vejam, eu sei que está lá. Também acabo por não ouvir se me dizem algo "bom" com o qual não concordo, ou se me vêm de uma forma que eu não identifico. Cai tudo no vazio.

 

No campo da “beleza” temos várias portas de entrada, temos o exercício, a alimentação e a cosmética, assim em grandes chapéus de chuva. Apesar da alimentação na minha vida sempre ter sido maioritariamente saudável, não vou dizer que não cometo asneiras volta e meia. Apesar de sempre ter tentado ter uma vida relativamente activa e incluir algum exercício numa base regular, não vou dizer que não sou preguiçosa e que não encontro mil e uma desculpas para me baldar. E apesar de achar que a cosmética não resolve nada, não vou mentir e dizer que nunca me socorri de cremes, chás, comprimidos e coisas assim para melhorar o aspecto.

 

O resultado de tudo isto é muito proporcional à nossa dedicação claro.

 

Em plena adolescência, digamos 14, 15 anos, comecei a ter alguns “acessos” depressivos, sentia-me sozinha, triste, muitas vezes nem tinha razão para isso, ou por outro lado, muitas vezes ao pensar nisso não reconheço a razão. Provavelmente há coisas que vivemos na adolescência que desvalorizamos em adultos. Nessa época, em “pseudo-crises” comecei a comer por impulso, de preferência porcaria da grande….um pacote de batatas fritas, um frasco de azeitonas, uma tablete de chocolate, até das de culinária servia, sei lá, o que encontrasse na dispensa. E depois desse acesso mais ou menos demorado, vinha a culpa, e com ela um enjoo enorme. Uma raiva, um ódio por ter feito aquilo e comido que nem uma lontra. E depois disso vinha o vómito. Sim, provocado.

 

O nome técnico disto é bulimia, mas nunca considerei que tinha um distúrbio. O certo é que é o tipo de coisa que quando se faz uma vez passa a ficar acessível, a vez seguinte é mais fácil, a outra a seguir é ainda mais fácil, e em pouco tempo o hábito passa a necessidade.

Começava a controlar melhor o que comia, e a ter mais cuidado, mas a cabeça passava a controlar-me e em pouco tempo a necessidade de vomitar depois de almoçar ou jantar, ou comer porcarias à tarde era muito maior.

Quando ia almoçar a casa estava sozinha, e ao lanche muitas vezes também, apenas depois do jantar era mais difícil faze-lo sem que a minha mãe percebesse. Acho que até hoje nunca soube, e eu aprendi a mentir, descaradamente.

 

Ao fim de um mês e pouco já estava mais do que habituada, e até na escola o fazia, sempre com cuidado para que ninguém percebesse.

 

E depois, ao fim desse tempo, quando percebi que estava viciada em fazer isso fui pesquisar, li sobre os efeitos que o ácido tem no esófago, garganta, dentes; Li sobre as consequências para o estômago enquanto músculo ao fazer contracções exageradas e sobre os efeitos gerais a longo prazo que eram mais do que muitos, e assustadores.

 

Li, matutei, e resolvi-me, parei. Mas soube desde esse momento que o problema estava na cabeça e que portanto tinha que controlar melhor o que comia para não me voltar a ver em posição de o fazer novamente.

 

Passaram mais de dez anos, e não posso dizer que nunca mais o tenha feito, fiz, ainda há dois dias o fiz, e por isso escrevi este texto, porque de repente tudo ficou tão presente de novo.

 

Mais uma vez, sei que o mal está na minha cabeça, e sei que o melhor que posso fazer é controlar a alimentação e fazer mais exercício, pois isso evita a culpa, e não haver culpa previne o resto.

 

Ante-ontem caí na esparrela da minha mente, ontem ensinei-lhe quem manda, só com meia hora de exercício, em casa, na minha paz e sossego, com a minha música.

 

Sei que raras vezes me olho ao espelho e não encontro um defeito; Vou ter sempre as estrias de quando emagreci do 40 até ao 32, vou ter sempre alguma celulite que acho que nem à porrada se consegue eliminar, vou ter sempre uma curva mais ou menos ligeira na anca, e outra na barriga; mas é mesmo assim, não posse redesenhar-me, sou a única coisa que não consigo resolver com um desenho vectorial!

 

Resta-me ensinar a cabeça e portar-me bem.

 

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2 comentários

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De Happy a 17.05.2018 às 19:14

A nossa imagem mental nunca corresponde à real. Mas isso amos aprendendo e convivendo cada vez melhor com a nossa figura. Claro que o que comemos influencia.
Bjns
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De ipgines a 17.05.2018 às 22:35

Obrigada pelo post. Em Semana de Saúde Mental :)

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