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Cartas que não se escrevem IV

por Catarina, em 21.12.18

Não sabia bem o que a impressionava nele, o que a atraía;

Não saberia dizer se era o sorriso fácil, aberto, as piadas inteligentes e com graça, a simpatia e o trato fácil. Se era a figura esguia de tão alto, o cabelo meio grisalho mas ainda jovem, tão jovem.

Era mais novo do que ela, certamente, e por isso não sabia, o que a impressionava nele. Até hoje só a atraiam homens mais velhos, mais maduros, com outras conversas, postura mais séria; mas havia nele uma frescura de novidade e juventude que sabiam bem, era uma brisa fresca no deserto.

Pela primeira vez nestes momentos de convívio os seus olhos procuravam-no, para variar de quem costumavam procurar antes; Desta vez era diferente, aquela novidade atraía-a mais do que o resto. Procurava-o com os olhos, e logo em seguida o perdia, e rodava a cabeça de novo…
Pelo caminho deu menos importância a quem costumava dar, a quem se habituara a procurar nos últimos anos.  
Tinham-se cruzado no início da noite, numa ridícula fila até ao bengaleiro, em que ele a viu e se meteu com ela primeiro. À volta quem estava com ela deu por ele e estranhou mas ela fingiu não perceber as questões nos olhares alheios.
Mais tarde ela encontrou-o junto ao bar, meteram conversa: era a private joke sobre um guardanapo, o calor, a música, as horas, o cansaço e a euforia, tudo junto. Ela perdeu-se do grupo por momentos, aqueles minutos duraram horas, quem viu de fora novamente cheirou novidade. Ela aproveitou aqueles minutos, deu-se por feliz e seguiu viagem até ao seu grupo, sem intenções de o procurar com os olhos novamente. Ficara ciente de que com mais álcool no sangue  ou umas horas mais tarde os dois poderiam deslizar, e os dois tinham alguém à espera. 
Quando mais tarde deixou a festa sozinha, pensou pela segunda vez na vida, seria capaz de trair? Achava que não, esperava que não, queria que não, mas até onde poderia ir se algum dia os limites ficassem enevoados?

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Cartas que não se escrevem III

por Catarina, em 14.06.18

Ando a dizer-te adeus.

 

Acho eu.

 

Por cada noite que adormeço a chorar sinto que mais um bocadinho de ti me deixou.

 

À minha volta ninguém acredita quando digo que desta vez acho muito difícil darmos a volta por cima. Mas o que sinto mesmo é que os problemas se sobrepuseram a nós.

 

Ontem falámos durante 1 minuto e longos 33 segundos. Não falávamos há uma semana.

Fui só eu que tive a sensação que já não éramos nós?

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Cartas que não se escrevem II

por Catarina, em 12.09.17
Dizem que falar é fácil, para mim não é. Para mim escrever é que é fácil, falar não. Falar é angustiante, quando tenho algo a dizer, e quando não tenho. Ou quando tenho e não quero dizer.
Para quem gosta de escrever as palavras metem-me medo, as que digo, e principalmente as que não digo.
 
As dúvidas assaltam-me e a incerteza é um problema que não se fecha na gaveta; Vive aqui, está presente, vai ficando de mansinho, instala-se, engole as dúvidas e cresce como uma bola de neve. 
 
O estômago contrai, dói, a angústia pesa no peito como um elefante. De novo a voz embarga, os olhos humedecem, as lágrimas escorrem; Respirar torna-se difícil; é preciso pensar…inspira, expira…mais uma vez, e outra, e outra, e outra… As forças deixam-me, sinto-me tremer dos pés à cabeça.
 
Coragem, é o que me falta; Coragem para procurar o que sinto, para ter certezas, porque ter incertezas é mais fácil; A incerteza não pede uma acção, a certeza pede. Pelo menos a mim. Sinto-me numa panela de pressão…sabendo que fui eu que entrei e coloquei a tampa. 
 
Culpa, instabilidade, os meus nomes do meio. Culpa de quê? Das minhas incertezas, das minhas dúvidas, das minhas certezas, de não ter coragem para tomar atitudes que acho certas, de achar certas essas atitudes, de acreditar facilmente na derrota, de esperar pelo fim de algo que não se espera.
 
Há uns anos atrás tinha um pensamento que me assaltava muitas vezes; uma sensação estranha, desagradável, que em algum momento inesperado iria desaparecer; e numa qualquer reviravolta mais ou menos estúpida, teria o meu fim anunciado. Por vezes dei por mim a conduzir, e num momento sentia o cérebro a parar, como se tudo à volta estivesse suspenso…pensava “é agora”; ficava imóvel, à espera de algo, um som, algo que me dissesse o que se passava, algo que confirmasse outro algo.
 
Nada acontecia, voltava a mim, pensava que estava parva, fechava isso tudo numa gaveta bem funda e seguia a vida.

 

...

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Cartas que não se escrevem

por Catarina, em 07.09.17

Sou uma pessoa muito emocional, sensível, e como costumo dizer não é difícil chorar por tudo e por nada. Principalmente, por tudo.

 

Por vezes acho mais fácil escrever, em vez de falar nos olhos dos outros; Os olhos dos outros têm efeitos secundários nas minhas mensagens, posso começar a conversa com um objectivo, perder a coragem, e acabar noutro ponto, muito distante do que tinha em mente.

 

Falo de muita coisa de forma abstracta; Principalmente das coisas mais importantes. Acho que se não disser realmente os nomes, as coisas não existem, não se materializam na minha frente, o problema não pede resolução.

Fujo de chamar "os bois pelos nomes" porque não sei como resolver; Por vezes nem sei bem qual é o problema e isso deixa tudo muito pior.

 

Falar não consigo falar; A voz embarga-se, os olhos enchem-se de lágrimas silenciosas, e tudo o que quero é um abraço e a possibilidade de esconder a cara.

Fechar os olhos, dormir, fingir que não aconteceu. Se não pensar não existe, e se não existe não tenho de resolver.

 

Tudo o que não sei me consome, mais do que aquilo que sei. Não sei o caminho, não sei o destino;

Vou andando para a frente com a sensação que não é na realidade a "frente" e sim um ziguezague em fuga da decisão que acho que tenho de tomar. Mas que no fundo não sei se tenho de tomar, não sei se quero, não sei se devo, não sei se posso, não sei como.

 

Ontem adormeci a pensar em pôr por escrito os meus pensamentos, aquilo que acho que quero ou que devo dizer. Adormeci a escrever uma carta que não escrevi.

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