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Razão certa

por Catarina, em 31.12.18

A época de balanços fez-me pensar duas vezes em tudo o que aconteceu neste ano. Claro que não comecei a pensar só agora, tenho pensado desde Fevereiro acho eu! Quase um ano inteiro... e até agora não descodifiquei o puzzle que foram estes meses.

 

Há um ano atrás eu vivia com o M. no ovo, o nosso T1 mínimo que ficava num sítio que eu detestava, mas engolia. Estava perto do meu trabalho e tinha bons acessos ao dele. Há um ano atrás planeámos mudar no início do ano para um T2, que era de uns amigos que iam sair (contei a história aqui, e aqui e sei lá mais!).

 

Em Janeiro tratámos de tudo, em Fevereiro mudámos, em Março comecei a perceber que a coisa não estava a correr bem para o lado deles, que os planos e datas de saída não se iam concretizar, e de repente demos por nós a morar lá todos.

 

Em Abril eu entrei em parafuso, e começaram os problemas a crescer.

 

Em Maio eu estava em stress com os nervos à flor da pele e o M. teve a oportunidade de mudar de trabalho, para uma área em que supostamente ele queria investir, mas a 400km de distância.

 

Em Junho começámos a viver separados, ele lá, e eu cá, com o problema às costas, e a procurar casa.

 

Em Julho pus os pés à parede, disse não, e comecei a traçar novos planos. No final do mês fizémos as "partilhas" das coisas que tínhamos em conjunto, avaliámos a nossa situação, revimos os desentendimentos correntes dos últimos meses, e terminei a nossa relação numa sexta à noite. Ele concordou comigo. Fiz os possíveis por me aguentar, separei algumas coisas que ia precisar para levar e queria sair dali, ir para casa (a da mãe). Ele não me deixou. Percebia que as coisas não estavam bem, eu não conseguia evitar a torrente de lágrimas que me fugia dos olhos, mesmo querendo parecer dura, forte, e consciente da minha decisão. Queria que lhe dissesse que íamos continuar a falar, ser amigos, disse-lhe que naquela altura isso não era possível. Quando ia a sair quis ir comigo até ao carro, levar o saco que eu tinha na mão, evitei, mas acabei por anuir. Estava pronta para me ir embora e não me dar chance de repensar ou de dizer mais nada. Não me deixou, não queria que eu fosse naquele estado, pediu-me para ficar, para irmos jantar, entrou no carro e não saiu. Comecei a amolecer, o tempo passava, 15 minutos, meia-hora. Acabei por concordar em irmos jantar dada a falta de vontade de ir para casa naquele estado e ter de explicar tudo. Fomos até Marvila, sem planos. O tempo todo nesse jantar sentia-me noutro plano, comecei a falar de nós como passado. Não o deixei dar-me a mão. Ouvia initerruptamente na minha cabeça esta música, esta, e esta, num mix imperfeito. No final da noite deu-me a volta, conseguiu que ficasse e ir-me embora apenas no dia seguinte. Não dormi. Chorei, questionei-me, algures de madrugada conversámos, de manhã resolvemos continuar a tentar, demos outra opostunidade. Não contámos a ninguém aquela noite, pelo menos eu não consegui, mas não posso dizer que ficou tudo bem, que não fiquei com um buraco negro enorme cá dentro, apenas beneficiámos do facto de nos termos afastado geograficamente. 

 

Em Agosto estava de volta à casa, à mothership; Ele lá a 400km; Eles na casa de onde estavam para sair em Fevereiro, e só sairam em Dezembro. Fui de férias, e quando voltei acabei as mudanças.

 

Em Setembro ganhei alguma paz com o problema da casa resolvido, ele lá, eu cá.

 

Em Outubro continuou a vida, encontros aos fins-de-semana alternados eram a nossa rotina nova.

 

Em Novembro idem, com a agravante que me comecei a sentir mais solteira do que antes.

 

Em Dezembro cá estou, com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas que tive em Julho, à procura das razões certas para continuar esta história, ou à procura de um fim.

 

Gradualmente comecei a pensar contando só com 1, comigo. Voltei a organizar a minha vida mais com a minha mãe, e pela agenda do trabalho. Reduzi os nossos antigos planos a ideias guardadas para outra altura melhor. Habituei-me a dormir novamente sozinha, mas agora numa cama de casal com 4 almofadas, e já acho que falta espaço se estiver aqui mais alguém. Comecei a fazer planos sozinha, a pensar em comprar casa, em viajar, em estudar ou trabalhar fora por um tempo.

 

Não deixámos de namorar é certo, mas ficou uma coisa estranha para mim, e não sei bem até que ponto ele tem consciência disso. Não deixei de ser carinhosa nem amorosa nem de demonstrar que gosto dele, mas ficou um buraco aqui que ainda não consegui tapar, e não posso negar que nestes sete anos não houve dúvidas e momentos menos bons. 

Entretanto ele percebeu que aquele caminho profissional não era o dele, mais cedo ou mais tarde regressa a casa, à sua mothership...E agora, esta altura do ano parece gritar-me que tome uma decisão, que faça uma escolha, que o ano de 2019 não pode ser outra incógnita, e que preciso de saber quantos estão no barco para planear a viagem.

 

Ainda não consegui voltar a ouvir a Carolina sem chorar.

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A cultura da estabilidade

por Catarina, em 01.08.17

Ler o blogue da Madalena de que falei aqui fez-me pensar na coragem que é preciso para arriscar uma mudança na vida. A pessoa habitua-se ao que tem como certo, o dia-a-dia, o trabalho, a família, o namorado, independentemente da ordem e da prioridade, e pensar em quebrar essa rotina pode ser quase um choque.

 
Durante quase três anos estive profissionalmente ligada ao tema do empreendedorismo; Deixou de ser um palavrão estranho para passar a ser um novo mundo de aprendizagem.
De tudo o que aprendi recordo aquilo com que mais me identifiquei: a cultura da estabilidade. Os portugueses sonham com a estabilidade pessoal e profissional, com um emprego fixo e certo, com uma casa, com um carro, etc; No geral lidam mal com a instabilidade e com a incerteza ou a insegurança que vêem com o correr o risco. identifiquei-me muito com isto porque partilho desta cultura e procuro viver desta forma, com certezas, com seguranças e também com as consequências que daí advêm.
 
Há uns meses uma colega dizia-me que não via a hora de conseguir deixar a empresa para abrir o seu atelier de design e trabalhar por conta própria. Eu disse para mim “nem morta”; Por todos os motivos, por adorar a minha empresa, a sua cultura, o meu trabalho, os projectos e os colegas; E também, ou mais ainda, por detestar a ideia de trabalhar por conta própria, a incerteza de projectos, a certeza de clientes maus pagadores, a certeza da minha falta de paciência para lidar com clientes pouco dados à cultura visual e com quem eu teria de falar noutra “língua”… Nada me atrai nessa forma de trabalho a não ser a liberdade de horários, mas nem isso me faria mudar de ideias. Já para não falar das papeladas, das finanças e da segurança social, dos impostos e da carga fiscal e burocrática sufocante nesta terra!
 
Outro dia em conversa com um amigo de uma amiga este contava a sua experiência como guia turístico freelancer e dos pontos bons eu ouvi pouco, porque ele incidiu muito mais nos negativos; Na forma como o seu emprego é instável, como trabalha quase apenas seis meses no ano, e esses meses são passados muitas vezes longe de casa. Contou também como é a relação com os clientes (as operadoras turísticas) e todos os diversos problemas que tem com uns e outros, já para não falar na psicologia dos grupos de turistas… Pensei para mim que este não deve ser um emprego nada agradável, pelo menos para a minha forma de ser, sei que não dava para mim! 
 
O país tenta estimular o empreendedorismo e as novas ideias mas esquecem-se todos que estamos num país de velhos, em espírito e não necessariamente em idade, que vivem pelas regras e conceitos de outrora mais que ultrapassados e estrangulam uma boa parte do espírito empreendedor e da resiliência. Há muitos bem sucedidos, que sei que há, mas também há muitos que não aguentam, que afundam. Desses ninguém fala, talvez para evitar o contágio de uma “nuvem negra”, mas esses são tão importantes como os outros. Há muitas razões para falhar, e outro problema comum dos portugueses é o medo do erro, o medo desse erro ficar mais conhecido do que o sucesso que o possa ter precedido. O medo é lixado, e nós por cá somos peritos em encontrar a justificação para o erro, e dizer que isto ou aquilo não resultou porque aqui d’el rei choveu uma carga de água. Temos sempre a tendência de justificar, de desculpar, e até de sacudir a água do capote e com isto acho que nunca aprendemos realmente nada de novo.
 
 

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